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Antroposofia (ou Minha inveja a Steiner, parte I)

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Procurávamos uma escola que não fosse tradicional, conteudista, desrespeitosa do momento único e irreparável que é a infância. Encontramos uma certa Escola Waldorf Micael, estranho nome de um idoso misturado com o de um poderoso Arcanjo.  Ela satisfazia tudo o que procurávamos. Era bonita, colorida, arborizada. Nos anos mais iniciais não se ouvia falar em disciplinas, ou os conteúdos eram dados de forma muito leve, natural, inseridos sutilmente na dinâmica do dia. Falava-se no brincar livre e via-se o pátio cheio de brinquedos artesanais, de madeira. Alguns professores eram carpinteiros, e sabia-se que a própria carpintaria seria ensinada às crianças em momento oportuno, mas ainda na infância, como se o ato de carpintejar a madeira bruta refletisse o trabalho na própria alma. Aliás, tudo lá parecia ter um sentido oculto de levar a que os atos externos reverberassem no interior das crianças, e dos adultos também. Os professores pareciam felizes e em harmonia com a natureza. Uma preo...

Como perdi Jesus de vista

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Não tinha Jesus como Deus desde a infância, creio eu. Mas uma evangelizadora (assim chamam as "tias" que ensinam sobre o Evangelho Segundo o Espiritismo) havia facilitado a visualização de Deus pedindo que eu pensasse em Jesus, pois era o que estava mais próximo dele, não em substância, mas espacialmente. O Pai-Nosso e a Ave-Maria me foram ensinados por mamãe nas noites antes de dormir. Não há cultura espírita que imponha isso. Era resquício católico dela que, apesar de se dizer espírita, não sem hesitar, por motivos que tratarei em outro momento, foi até o último dia de sua consciência assistindo à missa pela televisão. Assim, foi-me sendo construída uma imagem de Jesus, se não Deus, um semi-deus, senhor de tudo que eu conhecia, cujo reinado se perdia no horizonte, a quem devíamos tudo do dia, e da noite.  A adolescência veio, a evangelização espírita seguiu seu curso, nos aprofundando em temas pincelados na infância, um dos quais era a real natureza de Cristo. Foi, então, q...

Espiritismo à brasileira

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O meu dia preferido da semana era o domingo, quando íamos para o Centro Espírita ser evangelizados. Por algum motivo eu adorava aquele lugar. Conhecer os nortes da vida, mostrando o certo e o errado e o porque das coisas. Pintar Deus, Jesus, Maria, presépios, planetas. Orar, cantar, fazer lembrancinhas em dias especiais.  Na medida que íamos crescendo, tínhamos acesso ao aprofundamento da doutrina. Entendíamos a grandeza de Jesus, e a tradição que o antecedia apontando a sua vinda, mas também, como eram importantes a mediunidade, redescoberta pelo Espiritismo, e a reencarnação, pedra angular da justiça divina.  Sentia-me muito inteligente em saber dos diferentes tipos de planetas, a gradação moral, na luta entre o bem e o mal, que os distinguia, bem como entender a diferença entre os espíritos que nos rodeavam.  Aprendi a ler com desenvoltura à cabeceira da cama dos meus pais, no momento do Evangelho no Lar , lendo o Evangelho Segundo o Espiritismo , eu mesmo. Ficava com ...

A Última Pá de Terra

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Estou a poucos passos de ser católico. Faltam poucas páginas de catequese para, então, enviar os documentos necessários à paróquia.  Uma simbologia forte estará em torno do meu batizado. Será na pequena cidade onde enterrei meus pais e meus avós maternos. É onde estão enterrados também as melhores lembranças da infância. Onde moram tantos fantasmas, renascerei. Não sei o que papai diria disso. Por um tempo pensei que seria um problema, que ele tinha um orgulho tremendo de ter um filho tão espírita. Hoje penso que diria tudo estar bem onde meu coração estiver bem. Mas, sempre me afastei desse ecumenismo morno. Ou era o espiritismo o futuro das religiões, e portanto eu vinha perdoando toda a ignorância delas de ainda não o serem, ou é o catolicismo agora a única religião que conduzirá a Deus, e o que será das demais? Aprendi a dizer não sei.  Parte da minha conversão exige que revele, não por imposição da igreja, mas para conhecer a minha verdade, que eu tinha repúdio ao catolic...

Perdão imerecido

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Sonhei que eu havia matado muitos criminosos. Apenas eu e uma espada. Não fui atingido nenhuma vez. Matei da forma mais fria possível. Banhei-me de sangue. Foram muitos os mortos e em vários lugares.  Era eu mesmo que estava lá. Reconhecia-me perfeitamente no assassino. Era eu! E após limpar a catana, tomar o caminho de casa e retirar a máscara, assumi o meu papel de pai, provedor do lar, marido, bom amigo e companheiro de trabalho na vida que levo atualmente.  Acordei com um susto enorme, como se, enfim, tivessem me encontrado, os juízes. Fiquei em um confuso despertar, perturbado de fato que houvessem me achado, revelado meu disfarce. Esse eu que animo hoje, um grande disfarce.  Foram tantas mortes, todas pelas minhas mãos. E o susto não era de as ter cometido, mas de terem me descoberto. Então, lembro do quanto dediquei esta vida que carrego hoje a Jesus, em divulgar seus ensinamentos e tentar trazer o reino dele à Terra. Começo a me envergonhar, e a vergonha vai se ap...

Minha esposa

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Eu lembro que tentei doutriná-la, converter é a palavra mais certa. Não querendo viver o primeiro namoro em que tive a amada rejeitando minha doutrina, dei para apostar na minha última namorada com a vontade de moldá-la à minha felicidade. A fragilidade dela me passava uma abertura para tentar domesticar o seu medo, sua vergonha, sua tristeza, e fazer florir ainda mais o seu sorriso, deixá-la plena, livre, mulher. Queria fecundá-la muito mais do que com meus genes, mas com minha filosofia, a espírita.  Não consegui. O tempo foi passando e ela resistia. Não com silogismos. Apenas resistia. Embora cada vez mais distante da missa e sempre afeita a um catolicismo mais aberto, ela resistia. Havia um núcleo de crença inabalável que eu pelejava por entrar e ressignificar, mas via que permanecia.  - Jesus e Deus são uma só e a mesma pessoa.  Jesus fazer milagres improváveis e ter ressurgido dos mortos com o corpo de carne, ou ainda a virgindade de Maria, tudo era consequência des...

Entre o Amor e a Revolução

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Judas, com um beijo entregas este Homem? (Lucas 22:48)   Havia um amigo com quem partilhava a caminhada de volta para casa, vindo do colégio, todos os dias. Éramos, àquela época, moços e ingênuos.  Lembro, em meio ao carnaval que animava as ruas da cidade, de ele me pedir que o acompanhasse até o lugar onde sua namorada estaria lhe esperando. Fomos até lá e esperei a alguns metros de distância ele ter uma conversa com ela. Acabaram o namoro ali. Ela era jovem, dizia, estava cheia de desejo, e não queria se prender a apenas um rapaz. Como eu havia dito antes, era carnaval. Ele me agradeceu a companhia. Voltou desolado para o lugar em que estávamos originalmente, sem dança, sem alegria, apenas olhava o movimento dos foliões, disfarçando a dor o resto da noite. Separamo-nos. Ele, rumo à advocacia, e eu, à medicina. Um dia, fui visitá-lo. Ainda estávamos na faculdade. Sua mãe era religiosa. E ele havia herdado certo hábito da mãe de ir à igreja. Pelo menos, naqueles idos de nossa ...