Como perdi Jesus de vista



Não tinha Jesus como Deus desde a infância, creio eu. Mas uma evangelizadora (assim chamam as "tias" que ensinam sobre o Evangelho Segundo o Espiritismo) havia facilitado a visualização de Deus pedindo que eu pensasse em Jesus, pois era o que estava mais próximo dele, não em substância, mas espacialmente.

O Pai-Nosso e a Ave-Maria me foram ensinados por mamãe nas noites antes de dormir. Não há cultura espírita que imponha isso. Era resquício católico dela que, apesar de se dizer espírita, não sem hesitar, por motivos que tratarei em outro momento, foi até o último dia de sua consciência assistindo à missa pela televisão.

Assim, foi-me sendo construída uma imagem de Jesus, se não Deus, um semi-deus, senhor de tudo que eu conhecia, cujo reinado se perdia no horizonte, a quem devíamos tudo do dia, e da noite. 

A adolescência veio, a evangelização espírita seguiu seu curso, nos aprofundando em temas pincelados na infância, um dos quais era a real natureza de Cristo. Foi, então, que o véu pareceu se rasgar diante de mim. Já era claro que ele não era Deus. No entanto, levando em conta todas as premissas espíritas, era forçoso admitir que a experiência histórica de Jesus estaria circunscrita apenas ao planeta Terra. Ora, se há vários mundos habitados, como o Espiritismo nos diz por pura lógica de "Deus não fazer nada inútil" e atrelar essa necessária ação útil com a disseminação de vidas pelo cosmos a fora, então Jesus nos é colocado como sendo de fato Cristo, mas um Cristo do planeta Terra, que, por conseguinte, haveria vários Cristos, de diferentes envergaduras, com cada vez mais poderes e responsabilidades em consonância com sua hierarquia. Jesus seria, assim, um Cristo menor, planetário. Haveria os de sistemas solares, de constelações, de galáxias, de um universo inteiro, etc.

O dia em que me convenceram disso, meu mundo caiu. Senti uma mistura de náusea e vertigem. Náusea pela destruição de um deus que alicerçou minha infância, vertigem pela abertura de um portal de imagens de deidades infinitas. O apequenamento de Jesus não conseguiu ser atenuado com outras revelações do tipo: "este nosso Cristo atualizou suas potências em esteiras de mundos cujos sóis já se pulverizaram" ou "ele é de tal magnitude que um conjunto de espíritos crísticos se reuniu no Sol para planejar sua encarnação no momento oportuno", ou ainda, a partir de círculos ramatistas, "que Cristo teria moldado a si mesmo no ventre de Maria, que a matéria utilizada para isso era de uma natureza excepcional", etc. 

Embora Kardec não tivesse aprofundado essas questões, deixando a moral cristã contida nos evangelhos um modelo ético insuperável, decidindo não entrar no que constituía dogma para a igreja católica, as mais diversas correntes de revelações no Brasil coloriram a grandeza de Jesus ao seu bel prazer. O intuito era manter sua majestade, mas o efeito, aos poucos, foi torná-lo um quase igual a mim, separado por meros zilhões de milênios. Embora fosse importante ter com ele em orações de improviso, melhor ainda seria conhecer as leis do universo que me levariam a ser como ele. A doutrina se tornara superior a Jesus, engolfando-o, tornando-o um corolário dela. 

Houve um tempo que se esgotou o prazer de ir ao centro espírita, de trabalhar pela causa de sua divulgação, de ter com os irmãos de fé, de aderir às campanhas de caridade propostas. Dizia-se que a caridade era a chave da salvação, e que a instrução levaria a melhor praticá-la. Em alguma medida, então, era uma questão de mergulhar na doutrina. Se era, pois, uma questão de conhecimento e não de igreja ou de devoção, bastaria que eu vivesse minha vida cotidiana como um bom cidadão sem vacilar no estudo da grande literatura de revelações. É como se a perfeição do homem fosse uma equação para cuja resolução aos poucos eu iria encontrando as respostas. Não precisaria de um centro espírita para isso. Até porque, a maior parte das pessoas que lá estavam possuíam menos conhecimentos do que eu que já havia ascendido a dar palestras. E os que me superavam, era uma questão de tempo e método de estudo para reverter a corrida até a aquisição do Grande Conhecimento.

Jesus continuava sendo um amigo, um grande irmão, protetor planetário de cada santo dia. Um respeito sagrado me vinha quando dele falava, e sentia que minhas palestras eram mais acertadas quando por ele finalizava. 

Contudo, se o conhecimento era primordial, a codificação kardequiana representava apenas um ponto de partida. Ao investigar os desdobramentos daquela revolução espiritual iniciada na década de 1850, descobri um vasto panorama de movimentos espiritualistas. Suas raízes podem ser traçadas, ao menos, até figuras renascentistas como Pico della Mirandola e Cornelius Agrippa, passando por Jakob Böhme, cuja influência ressoa fortemente no movimento romântico alemão, em pensadores como Goethe e Hegel, e em outros expoentes como Mesmer e Swedenborg. Paralelamente, na França, deparei-me com Saint-Martin, Pasqually e Papus, muitos deles ligados a irmandades como a Maçonaria, a Rosa-Cruz e o Martinismo. Mais adiante, encontrei a Teosofia de Helena Blavatsky e a Antroposofia de Rudolf Steiner, esta última tendo moldado a abordagem pedagógica da primeira escola frequentada por meus filhos.

 

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