Antroposofia (ou Minha inveja a Steiner, parte I)


Procurávamos uma escola que não fosse tradicional, conteudista, desrespeitosa do momento único e irreparável que é a infância. Encontramos uma certa Escola Waldorf Micael, estranho nome de um idoso misturado com o de um poderoso Arcanjo. 

Ela satisfazia tudo o que procurávamos. Era bonita, colorida, arborizada. Nos anos mais iniciais não se ouvia falar em disciplinas, ou os conteúdos eram dados de forma muito leve, natural, inseridos sutilmente na dinâmica do dia. Falava-se no brincar livre e via-se o pátio cheio de brinquedos artesanais, de madeira. Alguns professores eram carpinteiros, e sabia-se que a própria carpintaria seria ensinada às crianças em momento oportuno, mas ainda na infância, como se o ato de carpintejar a madeira bruta refletisse o trabalho na própria alma. Aliás, tudo lá parecia ter um sentido oculto de levar a que os atos externos reverberassem no interior das crianças, e dos adultos também. Os professores pareciam felizes e em harmonia com a natureza. Uma preocupação com a invasão das tecnologias fazia com que nos advertissem em não usar celulares nos arredores do maternal e do jardim de infância, para que a natureza e não a tela os atraísse. 


As árvores eram cercadas de redes que poderiam aparar seguramente as crianças que se aventurassem em seus galhos, e havia muitos destes aventureiros, não apenas pelas árvores, mas pelos cercados, cuja atenção era chamada de forma muito acanhada por um ou outro professor que por ali passava. 

Um dia consegui chegar mais cedo que de costume para deixar os meninos e seguir ao trabalho, presenciei uma cena sagrada: o corpo docente se reuniu em círculo de mãos dadas e cantou algo em relação ao sol, como uma saudação. Algumas crianças estavam entrelaçadas neste círculo, outras brincavam por entre ele, entrando e saindo sem qualquer reprimenda. 

A pedagogia exigia todo um cuidado com a arte, pincéis de cera de abelha para os menores, bonecos de lã, brinquedos de madeira, porque também a madeira parecia ter uma reverberação mais suave nas almas, menos rígida nas mãos, e, ao ensino fundamental, cada lousa de matérias que recepcionava os olhares infantis era uma obra de arte em giz. Diziam-nos que antes da inteligência, importava despertar o belo e o bom em cada um. 

Resolvi visitar a biblioteca da escola. Possuía títulos eminentemente antroposóficos, isto é, da filosofia que fundamentava tudo aquilo. Os livros tratavam não apenas de assuntos sociais, mas também de forças zodiacais e angelicais, sim, de anjos! E o tal nome Micael que dava o segundo nome à escola era em referência ao grande arcanjo bíblico, aquele dado à luta contra o mal, representado com espada flamejante e armaduras romanas. Daí não ser estranho que uma escola tão pacífica não repreendesse as crianças que andavam com escudos e espadas na mão (de madeira, claro!), alvejando o mal invisível em brincadeiras de cavaleiros. O mal existe, e não se podia sufocar esse impulso micaélico de combatê-lo.

Embora tudo corresse bem, naqueles três anos que lhes deixei acalentar meus filhos, sempre uma pulga atrás da orelha me consumia. Rudolf Steiner, criador de tudo aquilo, era tido como um homem de habilidades especiais, para não dizer paranormais. Sua filosofia deu ramos não apenas a um pedagogia, mas a uma técnica agrícola, uma psicoterapia, uma medicina, uma arquitetura e até mesmo um tipo de religião. Deixavam claro que aquela religião um dia já havia sido passada para os alunos, mas, com o tempo, acharam por bem já não mais o fazer. No meio dessa religião, a natureza de Cristo era revelada: que Cristo era uma força cósmica em torno do qual todos os anjos gravitavam; que houvera uma queda primordial, gerando forças arquetípicas do mal, e desde então, guerras cósmicas que repercutiam nas relações humanas; e, que Jesus, o homem Jesus, teria sido um Espírito multimilenar que amadureceu impecavelmente nas várias eras pelas quais passou o planeta Terra, tornando-se o receptáculo perfeito para que o Cristo cósmico o tomasse, na ocasião do batismo no Rio Jordão.

Steiner havia se mostrado um gênio precoce na adolescência. Destrinchou toda a obra de Goethe não apenas a analisando, mas trazendo deduções dela para problemas modernos. Enveredou em seitas esotéricas que se aprofundavam em questões astrológicas, cabalísticas e teúrgicas. A última pessoa que teria exercido fortemente influência sobre ele fora Madame Blavatsky, em sua Teosofia. Com o falecimento dela, e entendendo que o rumo da escola que fundara estava seguindo rumos diversos da caminhada filosófica que empreendia, Steiner se afastou dos teosofistas e fundou sua própria doutrina, a Antroposofia. Dos princípios fundamentais antroposóficos, que delineavam uma forma muito particular de conceber o homem e seu desenvolvimento espiritual, foi tirando as bases para todas as inovações que construiu no campo das ciências e das técnicas. 

Só tinha um problema. De onde ele tirou tudo aquilo? Além das escolas esotéricas que teve acesso, ele conseguiu acessar verdades a partir de um olhar percuciente que penetrava no mais íntimo da realidade, que, então, deixava transparecer a chave interpretativa que dava coerência a um todo cognoscitivo, por assim dizer, a uma gnose. Para que ele não fosse o único a ter essa percepção, ensinava aos seus discípulos o método: "como se adquirem conhecimentos dos mundos superiores?". Por mundo superior, não se entendia um outro planeta, mas dimensões de hierarquia que transcendiam ao mesmo tempo que englobavam a nossa. Nesse bolo, coloca-se a noção de Akasha, que seria uma memória cósmica, onde todas as verdades estariam armazenadas, no que poderíamos chamar de nuvem esotérica. Qualquer um poderia constatar suas conclusões. Bastava seguir seu método. 

Eis que bisbilhotando os livros da biblioteca da escola, na parte exclusiva sobre antroposofia, encontro um livro de palestras de Steiner. Folheio-o e dou com uma pergunta de um médico que se ressentia de ter várias falhas na condução de pacientes utilizando o modelo da trimembração. A resposta de Steiner inicia categórica, algo como, é porque você não está sabendo utilizar. A resposta típica de um guru. Se a prática do discípulo é exitosa, ele aplaude, e aquilo retroalimenta a certeza de sua revelação, e a comunidade de adeptos reforça suas crenças e sua idolatria ao mestre revelador do conhecimento oculto, mas se o discípulo questiona a aplicabilidade do princípio a todos os casos, o mestre o rejeita, agride-o como amador. No fundo foi essa a resposta de Steiner, o homem que o havia questionado precisava... precisava o que? Não seria estudar mais. Precisava melhor se concentrar na visualização do que havia nos mundos superiores, a fim de perceber que o certo estava em consonância com o que Steiner via. O certo estaria em fazer sua percepção concordar com a dele.

O admirável é que a antroposofia, com esse pano de fundo, havia se espalhado em várias partes do mundo, gerando não apenas uma comunidade de adeptos mas principalmente de consumidores de seus produtos. O perfil do grupo que a consumia ia desde os naturalistas que gostariam que seus filhos tivessem acesso a produtos menos industrializados a profundos conhecedores de sua doutrina que aplicavam os princípios de Steiner a cada movimento da vida. Conheci um pai que quando se mudou para minha cidade, foi seguindo o rastro da escola, e se fixou a poucos metros dela. Há documentários que mostram comunidades alternativas todas baseadas em sua doutrina e produtos alimentícios cultivados com sua agricultura e gado criado com sua ética de cuidados para com os animais. 

Steiner resgatou quase todo o imaginário e o modo de vida medieval: festas sagradas que respeitavam o movimento dos astros, culto a anjos, noção de uma força crística unificando as pessoas, cultivo de uma agricultura e uma pecuária de subsistência (baseada em astrologia), gosto pelo que é artesanal (objetos de lã ou madeira) e um toque especial de gosto artístico (as crianças aprendem na escola noções de kantele, violino e piano, tem seus olhos alimentados com pinturas e são instadas a fazer teatro em momentos especiais onde a escola toda para a fim de lhes assistir). 

Como um conhecimento fundado sobre princípios tão arbitrários pode gerar um movimento tão grande, com pessoas que parecem felizes por estar nele, embora desconheçam profundamente suas raízes? Ora, mas não é assim que se porta a massa de adeptos de qualquer religião?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Era Jesus a quem eu procurava

Minha esposa

A Última Pá de Terra